Considerando o país escravocrata em que vivemos, tendo consciência plena de que todo nosso país foi construído por mãos e sangue de negros e negras que foram escravizados, gostaria de nessa minha analise histórica que perpassa pela historia do bairro do Garcia, coloca-los no exercício da reflexão que nos trouxe uma moradora, Rosalina dos Santos Cardoso, 45 anos, diretora do “Conselho de Segurança da Polícia Militar para o Garcia”. Ela diz assim: "a comunidade se formou por iniciativa dos trabalhadores da fazenda. Os patrões construíam casas para os empregados morarem, onde hoje fica o fim de linha do bairro. Aos poucos esses empregados foram formando famílias e construindo novas casas, e a região foi crescendo”.É preciso analisar como o bairro foi se construindo geograficamente, historicamente e antropologicamente, podemos ver sempre pessoas trabalhando na fazenda para manter o grande império, sem autonomia e sem liberdade.
O bairro do Garcia nasce então no finalzinho do século XVI, quando se consolida a Fazenda Garcia D’Ávila, um dos maiores latifúndios do Brasil, a fazenda pertencia ao Conde Garcia D’Ávila, senhor da Casa da Torre, que criava gados, possui muitos escravos no local construindo suas riquezas, enquanto não eram vendidos a outros senhores, o que hoje chamamos de Fazenda Garcia.
(Fonte: Imagem retirada do site alinogarcia)
Pavimentação da Ladeira do Garcia
Depois a terra passou ao Mosteiro de São Bento, em seguida para o Coronel Duarte da Costa e, por fim, para a União Progresso Fabril da Bahia (propriedade da família Catharino). A falência econômica da União Fabril, no início do século XX, a família Catharino, perdeu o todo o patrimônio imobiliário. Em 1938, o espaço foi tombado como patrimônio histórico e comprado pela missão presbiteriana norte-americana, passando a abrigar o Colégio Dois de Julho (hoje Fundação Dois de Julho – entidade mantenedora do colégio e da faculdade). A tradição religiosa no ensino já existia no bairro com a construção pelos jesuítas do Colégio Antônio Vieira, em terra adquirida da Fazenda Garcia, em 1932. Hoje, há ainda outras instituições de educação, com tradição religiosa, como o Colégio Sacramentinas.A partir daí, pequenos pedaços da fazenda foram sendo arrendadas para aqueles que trabalhavam no local e para os migrantes que procuravam oportunidades de emprego em Salvador. Foi o início da consolidação do novo bairro, que viu surgir, junto com a nova população, empreendimentos educacionais voltados para os filhos da classe média da cidade.
(Fonte: Imagem retirada do site alinogarcia)
Arcos
Do outro lado do bairro, as marcas atuais são religiosas, e as casas, hoje, se misturam com prédios. Foi na Avenida Leovigildo Filgueiras que, no final do século XVIII, construiu-se o solar que abrigou o 8º Conde dos Arcos, dom Marcos de Noronha Brito, último vice-rei do Brasil. Ele foi governador da Capitania da Bahia de 1810 a 1817. Quando transferido para o Rio de Janeiro, em 1818, construiu um casarão nos padrões do Solar Conde dos Arcos da Bahia.
Próximo à Fundação Dois de Julho, há o parque da Arquidiocese de São Salvador – construção do século XIX que guarda riquezas arquitetônicas. Este funcionou como o Asilo Conde de Pereira Marinho e por muitos anos foi ocupado pelas Dorotéias. Ele não é tombado pelo patrimônio histórico. No entanto, a atual reforma busca preservar todas as características originais. No bairro, há representações de outras religiões. A Igreja Matriz Nossa Senhora de Lourdes fica no final de linha. Antes, era uma capela, construída em 1906.


Quanta riqueza cultural em um pedaço de Salvador. Religiosidade, arquitetura, o povoamento que se modifica ao longo do tempo. De fato, condiz com seu post apresentação, quando entendemos de onde viemos, passamos a saber como e para onde devemos e podemos ir!
ResponderExcluirEste importante bairro merecia ter sua historia tao bem contada. Parabens pelo otimo trab de pesquisa.
ResponderExcluirQue trabalho primoroso! Muito importante que haja uma valorização histórica patrimonial e cultural regional feita com o cuidado e detalhamento presentes nesse trabalho de pesquisa. É necessário que haja cada vez mais o resgate de memórias que são posta
ResponderExcluirs de lado, muita vezes propositalmente, pela historiografia brasileira e é possível perceber que isso é ainda mas forte quando há a forte presença do corpo negro africano ou nascido em território brasileiro. Resgates como esse são importantes para a construção de história feita por quem realmente a protagonizou.
Que lindeza! Amo os relatos de quem vivenciou a cidade desde a sua construção. Para a comunicação isso é muito importante. Esse resgate de forma clara e explicativa da história é essencial para seguirmos contanto a nossa história sem as manobras da grande mídia de massa. Parabéns! Vida longa ao blog!
ResponderExcluirParabéns! !! que riqueza de informações, obrigada por compartilhar.
ResponderExcluirIncrivel essas informaçoes.
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