quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Entrevista com Andrea.

Andrea de J. Santana da Silva, 32 anos, é professora e nos deu seu relato sobre suas vivências com o bairro do Garcia.




Dai Costa - Qual sua relação com o bairro do Garcia?
Dea Santana - O Garcia, além de ser o bairro onde minha família materna cresceu e criou raízes, foi o bairro onde marei por quase a totalidade da minha vida e representa não só uma parte importante da minha formação pessoal e educacional, como representa a história da minha família.
Dai Costa - Por quanto tempo você morou e onde você morou no Garcia?
Dea Santana - Eu morei quando muito pequena no Final de Linha do Garcia e não tenho muita lembranças desse período, a não ser algumas relacionadas à escolinha que frequentava, chamada 25 de Agosto, se não me engano. Depois morei no Cabula até os 5 anos. Voltei pro Garcia em 1990 pra morar na Av. Leovigildo Filgueiras, na região dos colégios 2 de Julho e Antônio Vieira. Fiquei no Garcia por mais 23 anos e me mudei em 2013. No entanto minha família, em sua grande maioria, ainda mora no Garcia ou bairros vizinhos.
Dai Costa - Qual é a importância do bairro pra sua vida?
Dea Santana -  O Garcia é meu lar. Nele construí inúmeras relações importantes pra minha vida, além de fortalecer ainda mais os laços com a minha família. O Garcia é minha história. Foi lá onde vivi os momentos mais marcantes e importantes da minha vida, foi lá e com as pessoas com quem convivi que, também, construí meu senso de comunidade, vizinhança, família, etc. Além de ter sido onde minha avó, meus tios e minha mãe cresceram e, consequentemente, tudo que envolve o bairro impactou na maneira como fui criada, nas relações com as pessoas que moram ali, na familiaridade, etc. A experiência de morar no Garcia foi, sem dúvida, fundamental para a minha formação, não só acadêmica, mas pessoal.
Dai Costa - Você poderia contar uma historia, memoria que seja marcante para você, que esteja bem viva ainda?
Dea Santana - Lembro de algumas coisas, não necessariamente específicas, mas mais relacionadas ao que foi a experiência de morar lá. De específico lembro muito de um dia voltar da escola (estudava no Colégio Sacramentinas na época) e estar indo com minha mãe visitar a minha vó que mora lá. Naquela época estavam construindo o prédio onde morei por mais de 20 anos e o local estava fechado com tapume, mas havia um buraco nele onde as pessoas conseguiam olhar o terreno e ver a construção. Eu não alcançava e insisti pra minha mãe me carregasse pra ver. Olhei, virei pra minha mãe e disse que queria morar ali. O que eu vi naquele terreno na verdade foi a possibilidade de estar perto da minha família, da liberdade de andar na rua, conhecendo todo mundo, que era algo que não tinha no Cabula, onde morava.
Dai Costa - Lembranças da Rua Conde Perereira Marinho?
Dea Santana - De coisas não tão específicas eu sempre amei a liberdade de estar num lugar onde me sentia segura, mesmo sendo criança. A minha casa e as casas da minha vó e das minhas tias eram próximas, então transitávamos livremente pelas ruas, indo pra casa da vó, da tia e encontrando conhecidos pela rua. Amava a rua da minha vó, Conde Pereira Marinha. Minha bisa morava lá, minha vó ainda mora e alguns tios tb. Aquela rua era nosso playground. Todas as brincadeiras de rua aprendi ali (era menina de prédio e acabei levando muitas brincadeiras pro prédio onde morava), jogamos golzinho, sete pedras, marinheiro, esconde-esconde, rouba bandeira. Fazíamos peças de teatro e obrigávamos nossos pais a assistir e aplaudir. Fui uma árvore muito orgulhosa em uma dessas peças.
Dai Costa - Tem alguma historia, memoria marcante na rua da sua avó?
Dea Santana - Na Conde Pereira Marinho tinha uma senhora, Dona Diná. Ela vendia a melhor torta do mundo. Metade bolo comum e metade de chocolate, com uma camada com coco ralado e uma cobertura de chocolate daquelas que criam uma capinha de açucar que dá pra quebrar. O bolo vinha enrolado naquele papel de baiana de acarajé, rosa. Minha vó sempre comprava pra mim, mas eu gostava mesmo de ir comprar. Havia uma escada que dava num terraço e a porta da casa e nesse terraço tinha um balanço de metal, acho que era azul. Enquanto dona Diná pegava a torta, a gente se balançava. Era pura felicidade.
Dai Costa - O garcia esta localizado dentro do circuito de carnaval, você tem memorias de disso?
Dea Santana - Eu amo carnaval e o Garcia, claro, é o grande responsável. Como a minha rua é uma saída para o Campo Grande, a rua começava a mudar antes mesmo do carnaval chegar. Os prédios e comércio com tapume, iluminação com linhas de lâmpadas incandescentes, os ambulantes, tudo era mágico. E antes mesmo do carnaval começar oficialmente a gente já sentia a folia. Quando criança minha mãe deixava eu comprar a batata frita, que ficava do lado do prédio. Ia sozinha, independente, me sentindo um pequena foliã, enquanto minha mãe olhava. A mudança do Garcia era outra coisa maravilhosa. Nesse dia, segunda-feira de carnaval, minha tia oferecia uma feijoada. Inicialmente era pros mais chegados, mas  depois de alguns anos virou um mega evento. Minha família tem isso de gostar de receber gente em casa. Na casa da minha tia toda festa é maravilhosa. Ela tem o dom de receber pessoas e fazer você se sentir à vontade e sair de lá certo de que foi a melhor festa que você foi. Nunca ninguém jamais dirá que ir pra casa dela não é divertido e, principalmente, a garantia de ganhar uns 5 quilos da mais deliciosa comida. A feijoada ficava maior a cada ano, cada ano tinha mais gente que eu nunca vi e gente que meus tios, os anfitriões, também nunca viram. Mas nunca faltou comida. Quando criança ficava impressionada como nunca parava de sair comida daquela cozinha e ainda levávamos nossa quentinha. Na segunda de carnaval todo mundo se encontrava. A família toda se reunia pra ver a mudança e ocupávamos a esquina da Conde Pereira Marinho. Até aquele amigo que você não vê há muito tempo, você vai encontrar lá. Nem precisávamos de Whatsapp. Era só acordar, se arrumar e ir pro Garcia que as almas se encontravam. Feijão, confete e serpentina. Carnaval era isso. A feijoada não acontece mais, mas na Mudança do Garcia todo mundo ainda se encontra.
Dai Costa - Para fecharmos, me conte mais uma historia marcante sobre o Garcia que lhe marca até hoje...
Dea Santana - Outra coisa que amo graças ao Garcia é dia de eleição. Eu adoro dia de eleição. Mudei de bairro, mas não troquei meu colégio eleitoral. Eleição é dia de acordar cedo, votar cedo e ir pra casa da minha vó. Você encontra todo mundo na rua, revê aquele mesário simpático que a cada 2 anos tá lá te esperando. Depois de votar, é casa de vó, que é o melhor lugar do planeta. Minha vó teve 12 filhos. Quase todos teve filhos e alguns desses filhos já são pais. Enfim, você imagina o que é uma casa pequena com 30 pessoas, menino correndo, criança chorando e todo mundo falando ao mesmo tempo. Pra mim é paraíso. Reunir todo mundo naquela confusão que todo mundo se entende é o ponto mais alto de tudo.




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